Você recebe uma mensagem.
A conversa flui. A pessoa é interessante, engraçada, sedutora. Parece exatamente o seu tipo.
Mas existe uma pergunta que talvez você nunca tenha feito:
quem está realmente escrevendo do outro lado?
A inteligência artificial já consegue criar imagens, melhorar fotos, escrever textos, sugerir respostas, imitar estilos de comunicação e até ajudar alguém a se apresentar melhor em aplicativos de relacionamento.
A tecnologia não está apenas ajudando pessoas a se encontrarem.
Ela já está ajudando pessoas a construírem a própria imagem.
O que você está conhecendo?
Quando um perfil parece perfeito, a descrição é interessante e a conversa funciona bem, surge uma questão nova:
você está conhecendo a pessoa ou uma versão dela construída com ajuda da IA?
Isso vale para fotos, textos e também para a conversa.
Uma pessoa pode usar inteligência artificial para melhorar a primeira mensagem, criar uma resposta mais sedutora, corrigir o texto, escolher o que dizer ou até manter o ritmo da conversa.
Em algum momento, a ferramenta deixa de ser apenas uma ajuda?
Você perceberia uma imagem criada por IA?
Uma pesquisa publicada no Computers in Human Behavior Reports colocou 831 usuários de aplicativos de relacionamento diante de imagens reais e imagens geradas por inteligência artificial.
O objetivo era descobrir se as pessoas conseguiam diferenciar umas das outras.
O desempenho foi baixo.
Isso mostra como já pode ser difícil identificar, apenas olhando, quando uma imagem foi criada por IA.
Agora leve isso para uma conversa.
Se a foto pode ser criada, a descrição pode ser escrita e as respostas podem ser sugeridas, quanto da experiência ainda representa espontaneamente aquela pessoa?
Onde termina a ajuda e começa a falsificação?
Usar IA para corrigir uma frase não é necessariamente muito diferente de pedir ajuda a um amigo.
Melhorar uma foto também não é novidade.
O ponto muda quando praticamente toda a experiência passa pela ferramenta.
A foto foi criada.
A descrição foi escrita.
A abordagem foi sugerida.
O flerte foi conduzido.
As respostas foram elaboradas.
Nesse caso, o match está conhecendo quem?
Essa talvez seja uma das questões mais interessantes da inteligência artificial aplicada aos relacionamentos.
E quando o vínculo é com a própria IA?
A discussão vai além dos aplicativos.
Algumas pessoas já estão criando vínculos afetivos diretamente com inteligências artificiais.
Conversam diariamente, contam segredos, pedem conselhos e criam histórias compartilhadas.
Além disso, pesquisas recentes já começam a investigar esse tipo de relação.
Isso mostra que a fronteira entre tecnologia, identidade e afeto está ficando cada vez menos clara.
E no meio liberal?
No meio liberal, essa discussão ganha uma camada importante.
Imagine um casal conhecendo outro casal.
Ou um single conversando com alguém durante alguns dias.
Existe flerte, expectativa, troca de informações, negociação de limites e consentimento.
Mas, nesse caso, a inteligência artificial construiu uma parte relevante dessa interação..
Isso mudaria alguma coisa para você?
Para algumas pessoas, talvez não.
Para outras, descobrir que boa parte da personalidade apresentada na conversa foi construída com ajuda de IA poderia mudar completamente a percepção sobre aquele encontro.
Consentimento também passa pela transparência
No meio liberal, confiança, transparência e consentimento fazem parte da experiência.
Por isso, talvez a questão principal não seja se alguém pode ou não usar inteligência artificial.
A pergunta mais interessante pode ser:
em que momento o uso da IA passa a ser uma informação importante para a outra pessoa?
Corrigir uma mensagem?
Criar uma foto?
Escrever a bio?
Conduzir boa parte da conversa?
Não existe uma resposta simples.
Mas essa discussão provavelmente vai crescer.
A pergunta já não é se a IA consegue parecer humana
Em muitas situações, ela já consegue o suficiente para gerar dúvida.
Talvez a pergunta agora seja outra:
Você precisa saber quando está conversando com uma IA?
Ou, mais precisamente:
você precisa saber quando a pessoa do outro lado está usando uma IA para construir a experiência que está tendo com você?
No meio liberal, essa pode se tornar uma discussão cada vez mais importante.
A inteligência artificial pode participar da sedução.
A questão é descobrir até onde ela pode participar sem mudar aquilo com que estamos, de fato, consentindo.
E você: continuaria interessado se descobrisse que seu match usou IA para criar o perfil e conduzir boa parte da conversa?

